De que esperanças nós, brasileiros, nos nutrimos?

De que esperanças nós, brasileiros, nos nutrimos?

Publicado em 20/1/12 às 2h41
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Difícil mesmo é não assistir ao programa do Datena nesses dias de grandes chuvas, alagamentos, deslizamentos, desabamentos, perigos; ruas virando rios, bombeiros com seus botes, gente chorando porque perdeu seus únicos ou poucos pertences comprados em 24 prestações numa dessas lojas cujo lucro é fazer prestações bem pequenas e a longo prazo (e as pessoas desconfiam, mas pagam tudo e mais duas vezes pela mesma coisa).

Difícil é não chorar diante da mãe desolada, apenas com a roupa do corpo, os filhos assustados ao redor, a casa invadida pelas águas: que rumo tomarão? Mais difícil ainda é saber que, mesmo que cheguem as verbas do Governo Federal, elas se dissipam, são corroídas pelo mau uso do dinheiro público e as crianças continuam com fome, com medo, sem escolas, sem casas e sem esperanças. Aliás, continuam com “fome e sede de justiça”. Só na região serrana do Rio de Janeiro? Não, em muitos outros lugares do país.

Estamos deixando crescer uma geração de desprotegidos de tudo; em alguns lugares do Brasil (ou na maioria deles?) as escolas que foram construídas há alguns anos estão caindo aos pedaços , a merenda é ausente e os professores se esforçam para não abandonar tudo e botarem o pé no mundo ( mas como professor é profissão de fé…); com as chuvas, não raro tais escolas desmoronam junto com os sonhos de dignidade que podem ser encontrados dentro do peito de cada um de nós, os brasileiros. Nós, os que pagamos impostos, trabalhamos todos os dias e, ao fim da nossa jornada , recebemos uma aposentadoria de miséria que mal dá para os nossos remédios.

De que esperança nos nutrimos, nós, os brasileiros? De que acabem as filas dos bancos, dos SUS, dos atendimentos de qualquer natureza? Que esperança corre nas minhas veias e se aninha no meu peito quando vejo corredores de hospitais cheios de gente tratada como gado? Gente que morre porque “o médico não veio trabalhar”, porque “não chegou remédio no postinho”, porque espera meses para conseguir uma consulta, um exame, uma satisfação e um tratamento adequado.

De que esperanças nos vestimos de verde e amarelo quando ouvimos na tevê e lemos nos jornais os descalabros de criaturas vis que passam ao largo da ética, afundados em suas misérias morais, em suas negociatas que esperam jamais serem descobertas?

Como combater os que furtam o povo, os que desonram as casas públicas, desde o Senado até às Câmaras Municipais?

Hoje, a imprensa denuncia, está mais do que nunca vigilante, alerta; felizmente vamos aprendendo, ralando os joelhos, construindo nossa história, quebrando a cara. Nós, os brasileiros, estamos aprendendo a dizer não.

A não aceitar qualquer coisa, a melhorar o nosso conhecimento, a buscar um caminho para a Ética e a alegria de estar no mundo. Para o que merecemos.

Mas o quanto ainda é duro para nós , nesses tempos de águas… e de mágoas, vermos que tudo é tão frágil e que uma simples chuva pode acabar com o que construímos com muita dificuldade e que pode afundar na lama, inclusive, a candidatura de muitos políticos que ainda não descobriram que nós, os brasileiros, não perdoamos quem nos abandona em dezembro, janeiro e fevereiro, à mercê das águas, desvalidos , com nossa casa à deriva, com nossos filhos em perigo, com a nossa vida por um triz.

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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