Um descuido e eles caem

Um descuido e eles caem

Publicado em 27/1/12 às 4h33
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Não, não, hoje não escreverei sobre política; escreverei sobre a vida, sobre os sonhos que todos temos e que, por isso mesmo, viram uma canção, um quadro na parede, um paninho bordado e com bainha de crochê, artesanato, um livro , peça de teatro, uma tese, um tratado, uma sinfonia inteira.

Todos temos lá os nossos sonhos, guardados dentro do peito ou concretizados sob a forma de uma casa, de uma árvore que se planta, de uma cortina esvoaçando ao vento. Nós, os humanos, tomamos muitos remédios, comemos o que não devemos, fazemos milhares de tratamentos para nos embelezar, arrumar a testa vincada, esticar a pele do rosto até que pareçamos sorrir sem sorriso; mas,na verdade, não há plástica que nos estique o lado de dentro e lá vamos nós colecionando sonhos, bordando paninhos que se chamam felicidade ou fantasia . Neste mundo louco, difícil encontrar alguém para dividir um sonhozinho que seja; parece que todos correm atrás do ter e se você se descuida e mostra o sonho, já recebe crítica: o único a que se permitem é ganhar na supermegaultrahipersena.

Eu sempre soube que deveria guardar um sonho e bem guardado. Uma coisa qualquer para realizar como uma esperança, mas isso é porque também sei que se um dia pararmos de fantasiar, sonhar o que seja, nosso coração estará morto e nossa vida não vale mais nada. Nossa felicidade se esconde sob vários nomes, vícios e virtudes. É assim que a vida vai e existe, do lado de fora ou de dentro, nossa felicidade se estende para além de nós e chega um tempo de reconhecer que só seremos felizes completamente se cuidarmos do outro com carinho.

Dizem que só teremos vivido completamente se tivermos um filho, plantarmos uma árvore e escrevermos um livro. Será? Fico pensando aqui o que é necessário fazer para sentir a completude e estar em paz, em perfeito equilíbrio. Descubro espantada que o perfeito equilíbrio é a casa barulhenta, a mesa posta e a família ao redor, um encontro gargalhante de velhos amigos, um abraço apertado… Tudo isso ou, pelo contrário, em silêncio completo ler um livro enquanto a chuva cai lá fora.

Cada um de nós é um guardião de sonhos, esperanças, alegrias.
Então, por que nos queixamos? Sei lá, também eu não sei a resposta; de vez em quando, também lá vou eu no meio da manada que caminha igual, indo sei lá pra onde, sem fantasiar. Humanos, nós, os ditos pensantes. Às vezes penso que o sonho é como os objetos que os equilibristas tentam manter girando, no ar. Um descuido, eles caem. E termina o espetáculo.

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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