A desocupação do Pinheirinho e a haste de uma orquídea

Publicado em 3/2/12 às 12h04
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Depois de uns dias nublados, o sol nasce outra vez “sobre justos e injustos”; neste fim de férias, é bom ficar preguiçando, lendo, ouvindo música, sentindo o mundo. Com o reaparecimento do sol, percebo, tudo fica mais vivo, mais intenso. Mas, por conta das chuvas, as plantas brotaram no jardim de inverno, cresceram tanto que mal cabem ali. 

Uma orquídea chuva-de-ouro apontou pela primeira vez uma haste delicada e anunciou que vai fazer nascer dezenas de florezinhas amarelas. Assim tudo é: há tempo para todas as coisas, para muitos renascimentos e ressurreições, o que guardado estava esperando a hora de ressuscitar, eis que vem com suas flores amarelas que ao mínimo vento vibram como abelhas.
Um velho e corroído provérbio diz que a beleza está nos olhos de quem vê. A beleza e o medo porque se a chuva faz brotar a haste da orquídea, também faz desmoronar encostas e leva gente embora. Se um prédio de dezoito andares caiu e arrastou outros dois em pleno centro do Rio de Janeiro, tudo é possível.

Que um rio transborde, que uma pedra role, que pessoas percam suas casas como aquelas que moravam no Pinheirinho.
Fico imaginando a dor de ser arrastado para fora de uma casa que se construiu tijolo a tijolo, bloco a bloco, telha a telha. A dor e a revolta.

Às vezes ( ou a maior parte das vezes?) a vida é injusta. Muitos Pinheirinhos existem, em muitos lugares do Brasil; muitos prédios desabam, muitas vidas são cortadas, crianças choram em abrigos, pais choram porque suas crianças se deitam em colchões finos sem lençol, longe do lar, da escola, dos parentes, vizinhos e amigos.

Quando vi aquelas imagens do Pinheirinho sendo desocupado, imaginei o que os policiais estavam sentindo. Muitos deles estariam cumprindo ordens à revelia dos seus sentimentos… Quando vi aquelas mães acordadas de repente, com os cabelos desgrenhados e os filhos no colo, imaginei que Justiça é cega, mas, muitas vezes, também é muda, manca, surda e inacessível para a maioria de nós, os brasileiros.

A mãe correndo com uma menininha no colo; o pai ,com o cabelo em desordem e a roupa amarrotada, vai faltar hoje ao emprego para tentar levar sua família para a casa de algum parente, para o salão de uma igreja, para qualquer lugar onde uma esperança brote como uma orquídea amarela, tremulando como uma pequena abelha.

E quando vi as pobres casas postas ao chão por aquelas máquinas, meu coração chorou aos soluços. Tudo aquilo é da tal massa falida de Naji Nahas , mega-investidor falido, envolvido em uma porção de falcatruas . Quase sete mil pessoas que ali moravam tiveram seus sonhos abortados, amputados. Ah, mas a Prefeitura de São José dos Campos ofereceu abrigo, tal como nos tempos de guerra… mas também ajudou no processo de escorraçá-los , permitiu que fossem tratados como bandidos nos confrontos com a polícia.

Tão frágeis como uma orquídea? Não… eu também os vi armados com seus capacetes e suas armaduras improvisadas… Nem tudo eram rosas por lá. Mas a figura daquela mãe correndo com seu bebê ficará guardada para sempre no meu peito porque ali, eu sei, estava a prova de que a vida e os sonhos são muito frágeis.

Tão frágeis como a haste de uma orquídea.

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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