Leite com Toddy

Publicado em 24/2/12 às 4h14
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Às vezes, o tempo é tão curto para tantas coisas que me pego em um fim de dia com a mesa cheia de papéis , lembretes, canetas e lápis esparramados, pelo menos uma dúzia de arquivos abertos no computador e uma dezena de tarefas por terminar. Tenho inveja enorme das pessoas que mantêm tudo em ordem , que leem um livro de cada vez, que escrevem artigo por artigo. Eu não consigo, vou me emaranhando no dia, no anoitecer, na noite, escrevendo, lendo, corrigindo, estudando.

Uma coisa de cada vez, um dia atrás do outro… pudesse eu, viveria dois dias de cada vez, sei lá.
Esta sofreguidão , feito uma criança, de que acabe o chocolate ou o sorvete.
Vou vivendo, então, dois dias de cada vez, fazendo mais do que posso, escrevendo mais do que devo. Meus dedos bailarinos saltam de um lado pro outro no teclado e eu gosto disso. Escrever é uma espécie de religião, um ritual, uma coisa que começa quando a gente acorda e liga o computador e checa os emails e vê se vai chover… nutridos de lembranças e acontecimentos, de leituras de autores, daquele poema, daquele trecho, daquela odisséia, daquele filme… escrevemos.
E a mesa cheia de recados, postites, pedaços de papel, metas a cumprir. Mal paramos para o almoço. Espiamos de vez quando pela janela do mundo: notícias, tiros, atores, novelas, desfiles de escolas de samba, brigas, blocos, dois jornalistas que morreram, tantos assuntos no mundo. Mas voltamos logo ao que é trabalho.
Espiamos o email ( por onde chega mais trabalho), paramos pra um abraço de um amigo que veio nos visitar, para uma xícara de café fresquinho, chamados pela vida, vem, vem, vem ser feliz…
Uma outra inveja que tenho é das pessoas que não levam trabalho pra casa, à noite param pra ver tevê, jornal nacional, bater papo. Tenho saudades das conversas longas do tempo em que fui criança e que a família se reunia por tudo e nada. As crianças esperavam os tios chegarem do trabalho e cada um trazia uma coisa diferente para elas: lápis de cor, livro para colorir, docinhos de padaria, confeitos pra depois do jantar. Todos sabiam de tudo sobre a vida de todos. Acho que hoje, bem… hoje somos solitários demais, quase nem temos famílias, um foi para um lado, o outro cruzou o Atlântico, os primos mudaram-se de Estado ( e eu estou escrevendo isso porque pus aqui por perto da mesa de trabalho uma foto da menina que fui um dia…)
Sôfregos, é isso que somos todos, ávidos, impacientes, nós, os temerários, os por-um-triz.
Olho para a mesa atulhada: tanto trabalho! Olho pra menina do retrato, com os cabelos vermelhos, os joelhos sempre raspados, o sorriso meio tímido. O tempo passava tão devagar naquela época. Vínhamos da escola, fazíamos a tarefa e sobrava ainda uma quase vida até o outro dia.
Digito duas linhas, olho pra menina de novo: não é que ela quase me sorri? E eu tenho certeza absoluta de que se eu aproximasse o meu ouvido aos lábios dela iria escutar: larga tudo isso aí, vamos dar umas piruetas no gramado, correr atrás de formigas e passarinhos, tomar leite com Toddy. Largo a mesa atulhada e vou pra cozinha beber leite com Toddy, sento-me e bebo bem devagar, os olhos fechados, sem pressa, nem nada. Apenas com a felicidade de estar no mundo , menina que um dia fui.

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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