Com o coração atento

Publicado em 9/3/12 às 4h40
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Vão muito rápidos os dias, eu sei. Mas é preciso estar com o coração atento para continuarmos vivos. Muitas vezes, por desatenção, deixamos de amar as coisas simples como a água fresca do copo, o vento que entra pela janela, a comida na mesa, a hora do repouso quando pensamos sobre o que causamos aos outros e a nossa consciência grita de susto ou está serenamente alegre.
Tão rápidos, os dias! Tudo parece igual; de repente temos a nítida certeza de que aquilo já nos aconteceu, aquela conversa, aquele rosto, aquele acontecimento, aquele trecho do romance, do conto, do poema, tudo como uma pequena verde folha onde Deus escreveu uma mensagem indecifrável nas linhas das bordas, na exata combinação das nervuras.
Ah, passa rápido como o voo da abelha, a asa voadora da libélula ou o bando de aves que , em bando ,antes um pouco que amanheça, passam aqui, sobre o meu telhado, em alvoroço de bicos , asas e penas.
Rápido demais, percebo. Tudo tão por um triz, basta um sopro e lá de cima despenca uma menina com seus sonhos, torre Eiffel que vomita uma criança-quase, desleixo, diante dos olhos perplexos dos pais.
Rápido como um raio e sua luz que corta a escuridão, mas deixa em nós a boca seca de susto e medo, espetáculo a que assistiu o nosso ancestral, mil avô que viu, pela primeira vez, um flash luminoso diante dos olhos e imaginou que um deus estivera ali.
É por isso que o nosso coração precisa estar atento e reencontrar o caminho que faz o tempo, caminhar devagar ao lado dele e sentir o sabor das pequenas coisas, o gosto vivo da vida que se reescreve em nós todos os dias: a emoção do primeiro passo de nosso filho, do primeiro beijo de nossa filha adolescente, de sonhar que plantamos árvores para o futuro, que vemos nascer a flor que será fruto e que , um dia, cumprirá o seu ciclo e , semente, renascerá como árvore outra vez, tal como nós mesmos que nascemos e renascemos e que, a cada existência, somos melhores, mais humanos, mais predispostos ao bem e à justiça.
Enquanto escrevo, nosso amigo querido bate à porta, fica para o almoço, senta-se à nossa mesa, conta coisas esquecidas. Está usando óculos, observamos. Tudo é ciclo, tudo está em seu lugar, todas as coisas são sagradas, plenas, magníficas. Mudamos, mas a amizade permanece acesa, vínculo fundo que permite o abraço apertado, a certeza de que nosso coração, apesar dos pesares, permanece vivo e atento; que nosso coração presta atenção ao mundo e que tudo vai rápido demais, como o rio, como uma gargalhada, como a alegria de estar no mundo, assim, tão plenamente.

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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