Donas de muitas histórias, sentimentos e esperanças

Publicado em 23/3/12 às 5h31
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Fico guardando histórias como se eu fosse assim, uma espécie de museu de acontecimentos; as pessoas me contam coisas na esperança de que elas virem uma crônica, talvez um poema, um conto. Guardo-as com cuidado, preciso delas para dar aulas, palestras, escrever.

Mas nada me comove tanto quando alguém me segura as mãos e me diz: recorto do jornal tudo o que você escreve… Ou quando me dão um abraço e me dizem que aquela crônica, ah, nela você falou tudo quanto eu penso do tempo, da vida, da esperança…
Escrevo histórias onde aparecem sempre pequenos animais que voam, habitantes do meu jardim interior, lembranças da infância, margaridinha amarela, bibelôs da avó, quintais encantados, de terra escura e coberta de folhas, terra cheirosa, antiga, verdadeira, de onde brotam o pessegueiro e a rosa-chá. Falo dessas pequenas coisas do cotidiano, mas enquanto escrevo, ah, estou atenta ao mundo, aos terremotos do Japão, ai que susto, ao ônibus em que vinham tantas crianças , em que morreram muitas em um túnel na Suíça. Eram crianças belgas de volta de suas férias, que triste isso… crianças não deveriam morrer.
Também sei de notícias tristes de corrupção, de outro ministro denunciado, da Dilma discursando no dia internacional da mulher. Aliás, me perguntaram por que não escrevi sobre mulheres no fim de semana passado. Ora, ora, simplesmente porque não acredito no dia comercial, perdão, no dia internacional das mulheres deste mundo de Deus.
Dia da mulher é todo dia, é o dia todo, embora ache que elas estão mudando, escolhendo melhor seus companheiros, tendo poucos filhos e fazendo muitas coisas. No fundo, embora com mudanças, continuamos as mesmas: olhamos o mundo, cuidamos dos nossos, aprendemos a ter este coração tão grande que mal cabe no nosso peito. Ali, agasalhamos os nossos mais fundos sentimentos, a nossa mais certa esperança de que tudo passará, tudo passará…
O mundo anda conturbado, americanos urinam sobre cadáveres de muçulmanos ; um sargento americano saiu de sua base e entrou nas casas pobres e atirou matando muitas criaturas. Não adianta perguntar por quê. Não há resposta para isso, principalmente porque entre os mortos havia nove crianças… E tudo quanto queremos é que nossos filhos cresçam e possamos enterrar respeitosamente nossos mortos.
Então, quando me contam histórias, pequenas ou grandes, tristes ou alegres, guardo-as no meu peito. Sou uma colecionadora de fatos. Quando olho um rosto, jamais me esqueço dele porque no fundo, no fundo, todos nós somos iguais, em qualquer parte do mundo. Nosso choro e nosso riso, nossa alegria de viver, nossa vontade de lutar são as mesmas também.
E penso, aqui sentada diante da tela do computador, sobre a dor do mundo. E sei que as mulheres que estavam trabalhando no Japão quando ocorreu o terremoto, pensaram, em primeiro lugar, nos filhos, no marido, nos que amam. Porque mulher é mulher em qualquer lugar, donas de muitas vidas, contadoras de muitas histórias, cheias de sentimentos e esperança.

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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