O amor de Deus, a transparência do Outono e uma laranjeira impossível

O amor de Deus, a transparência do Outono e uma laranjeira impossível

Publicado em 23/3/12 às 6h06
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Estamos em fins de março, o outono já se iniciou numa dessas madrugadas e eu estava lendo Almeida Garrett quando vi esta expressão: “Quando quero sonhar, ponho-me aos devaneios.” Tão lindo de se ler isso; no mundo, ainda há pessoas que sonham e fazem planos…

Quando começa o Outono, eu me lembro de uma amiga tão querida e tão distante, em época que ambas trabalhávamos juntas todos os dias, Fabíola, a Bi; um dia, na saída das aulas do período da manhã, ela parou no meio do estacionamento, olhou pra o céu tão limpo e me disse coisa de que jamais me esqueço: o Outono é isso, minha amiga, este céu azul-real, esta transparência no ar. Os pintores amam esta estação… Van Gogh amava pintar com esta luz aberta, com este céu assim.
Nunca mais deixei de acreditar neste milagre outonal, mesmo que as folhas comecem a cair.
Então, ponho-me aos devaneios porque sonhar faz parte da gente e faço planos e mais planos: viagens, botar a mesa para os que amo, aqueles com quem compartilho o amor e a vida.
A vida só vale a pena se sonharmos; assim, diária, dura, objetiva, ela é como um corvo pousado num galho seco, mas pode ser o pequeno pássaro de meigo canto, é você quem escolhe o enfoque.
Este ano vai nos fazer sofrer?
Mas pode, está claro, nos fazer rir. Tudo depende do ângulo pelo qual se observa o mundo: uma estrada ou um portão e seu cadeado.
Outro dia, fiquei sentada no escritório, olhando pacientemente a chuva sobre as plantas, aquele estremeção de verdes. A chuva vinha docemente sobre as folhas grossas, de verde cor de esmeralda e também sobre as folhinhas novas, recém-nascidas, esticando bordas e ganhando corpo. Sempre quis ter uma laranjeira neste pequeno jardim. Mas nem com mágica caberia; então, continua a ser um sonho, um devaneiozinho de criança; sempre que penso em laranjeiras em flor, imagino que Deus deva ter inventado essas flores brancas num dia de grande amor por nós, a tosca e feia humanidade.
Mas sei também de verdades tão tristes: um brasileiro que morreu de uma maneira estúpida na Austrália, um terremoto no México, crianças que morrem de fome na África, gritos de dor, desesperança. Bastava que olhássemos ao redor, nós, os humanos, para que víssemos que, mesmo entre os escombros, fome e dor habita, claro e suave, o imenso e delicado amor de Deus.
Quem sabe tomássemos vergonha na cara?

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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