Para nos aprisionar, para nos libertar

Para nos aprisionar, para nos libertar

Publicado em 2/3/12 às 2h46
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Há dias em que somos feitos de silêncio e asperezas; outros em que nosso amor transborda por tudo quanto nos cerca, desde as árvores de casca grossa e ampla copa até a fila de formigas marrons, inquietas, rápidas, que correm sobre a grama em busca de alguma coisa escondida, folha verde, resto de pão ou mesmo um bicho morto que deve ser levado para servir de alimento. E que pressa têm! É preciso ter pressa antes que chova…
Há dias que somos feitos de palavras e elas saltam no ar, ferem ou consolam, com sua música mais que exata. Se ferem, bom é pular este dia, tomar cuidado para que não alcancem quem espera de nós o amparo, a alegria…
Há dias em que o sol brilha em nós e iluminamos; há outros que somos pura sombra, ignorância, egoísmo e magoamos, ferimos. Por quê? Não sabemos.
Apenas sentimos  essa adaga e sua lâmina afiada no pescoço ,  mas, por detrás do silêncio, também sabemos ouvir a música da chuva, embora  muitas vezes pensemos ter perdido a chave de nós mesmos, a senha do cofre e dos cartões de crédito.  Aos poucos, aprendemos a gostar do silêncio e das formigas, das tardes chuvosas e viramos a página do nosso livro sem nenhuma mágoa ou dor: a história foi, certamente,inventada por um maluco autor que, na pressa de terminá-la, deixou tantas páginas em branco… Então, podemos colocar um fecho usando as palavras que nos interesse: brandas, intensas e alegres.
 Há muitos silêncios no mundo e sabemos que são quebrados por gritos de angústia, mas há também  grandes inventos, vacinas, máquinas, robôs, remédios para a dor e os ódios,  um labirinto e seus jardins secretos, suas portas falsas, seus bancos de pedra lisa e brilhante. Reinventamos, então, o nome de todas as coisas e vamos  escrevendo histórias para o tatear dos cegos: orquídeas em Braile, laranjas que, apalpadas, deixam sentir um cheiro doce e sua redondez , um poema que dedos decifram ávidos pelas rimas, uma folha e suas nervuras, um fruto e sua semente…
 E então descobrimos o  porquê de nascerem  jasmins do Marrocos e seu perfume delicado como um sussurro, e porque descobrimos, esta adaga afiada já não corta mais, não há tanta dor na vida, mas a música alegre do mundo. E por ser  março, já não temos medo de nada.
Março. E em algum lugar , sem que se espere, de repente  se iniciará a luz clara de quase-outono; as chuvas passarão como as páginas do livro são viradas e de novo reaprenderemos as senhas que nos livrem, finalmente, dos nossos próprios labirintos e escuridões que um dia, descuidados, inventamos para nos aprisionar.
•  Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para  cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br
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