Música para teclado de computador

Música para teclado de computador

Publicado em 16/4/12 às 12h57
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Acordo de repente e é quase de manhã, nem precisaria abrir os olhos pra saber. Me encolho pensando que ainda existem nesta mundo doido os mesmos barulhos que habitavam a minha infância: cães longínquos, pássaros tímidos na árvore do quintal, um carro solitário que vem pela avenida e para no farol. Tempo de acordar.Ouço uma conversa difusa e penso que devem ser duas pessoas esperando o ônibus e sei que a esta hora formigas confusas, marrons e brilhantes estão prestes a sair do chão (ah, enigma dos enigmas!) em fila indiana, formando trilhas, sem que meus olhos já nelas se detenham como antes.

Tento dormir mais um pouco, mas meus ouvidos atentos não me deixam em paz: vasculham ao redor, detectam portas vizinhas que se abrem, o vento leve da manhã que chega na cortina, os minúsculos insetos habitantes da noite que se escondem do sol que deve estar por sair. Olho o relógio, cinco e cinco, olhos piscantes e eletrônicos, um dois, um dois, um dois. Penso que talvez deva saltar da cama, tomar banho e me vestir, calçar os meus pés cumpridores, me pentear ( ou despentear?), e depois de tantos anos, tomar calmamente o meu café, ler o jornal com o marido, escolher o que se vai fazer no almoço. Só então me sentarei diante do computador onde escrevo livros didáticos, apostilas que , sei, vão nutrir cabeças que disputarão as poucas vagas em um vestibular.
Me dá uma vontade fininha de me enrolar na colcha, chamar minha mãe de volta, lá de longe, da infância, vem mãe, e me faz um carinho, vem mãe e diz que hoje é domingo e posso dormir mais um pouco, vem , mãe, e passa a sua mão de mãe no meu cabelo, vem , mãe, me soprar os joelhos ralados… vem, mãe?Criaturas que amo e das quais me distanciei aparecem, sorriem e me tomam pela mão.
Me deixo levar, vou sentindo o cheiro doce da hortelã e do alecrim, e do café , ah que bom, que bom, que bom…mas justo quando ia pegar uma fatia do pão quentinho feito pelas portuguesas mãos de minha avó materna… o relógio toca sacudindo a minha alma desatenta.Por um instante, depois de desligá-lo, fico em silêncio, agradecendo por tudo quanto posso, poderei fazer hoje.
Ouço subitamente o ruído de um pássaro e sua leve asa, o ruído das folhas, o ruído do mundo. Salto da cama como quem vai voar sem medo.Daqui a pouco, calçarei meus pés cumpridores. Daqui a pouco me sentarei diante do computador e meus dedos voadores saltarão por sobre as teclas.
Uns tocam violino, outros piano, outros trombone… mas eu, coitada, eu toco teclado de computador.

• Esther Rosado é professora de Literatura e Redação e autora de material didático para cursinho e Ensino Médio. E-mail: estherosado@uol.com.br

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