O atentado mora ao lado – Opinião (22/01/2015)

Publicado em 22/1/15 às 7h56
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O ano começou com um atentado trágico contra a humanidade – o assassinato de editores, jornalistas e cartunistas do semanário satírico francês Charlie Hebdo, no dia 7 de Janeiro. Dado o perfil contundente do veículo atacado, muitos pareceres e poréns começaram a surgir logo após a chacina. O debate ainda segue, alcançando uma vertente de opiniões que vai desde a relativização da liberdade de expressão para alinhar discursos anti-islamofóbicos até a justificativa do terror em nome do respeito à religião – o “bem feito, provocou!”.

No debate desta questão polêmica, há quem condene o atentado, há quem condene os cartunistas, há quem condene a religião. Há, também, quem acredite que o atentado mora ao lado, trazendo para perto o protesto, lembrando que o Boko Haram mata centenas de inocentes, bem como o tráfico de drogas e até mesmo a polícia brasileira.

Para se refletir sobre o peso do atentado ao Charlie Hebdo cometendo o mínimo de injustiças ideológicas e históricas é preciso observá-lo de maneira subjetiva. O peso do que aconteceu na França dia 7 tem muito mais a ver com os ideais e simbolismos de nossa sociedade moderna do que com somente a morte de inocentes. Pensa-se que a Europa e os países ocidentais são os arautos da democracia e experimentam a construção de uma sociedade livre e ideal.

Assim, um grupo extremista religioso tomar para si a vingança de seu deus proclamado, e atirar em pessoas que tomam a frente da crítica ao que consideram infeccioso à sociedade livre, significa atacar a veia central da convenção invisível dos países que se dizem democráticos. Tal convenção dita que a expressão deve ser livre e é fundamental para construir um debate que promova igualdade e evolução, através da crítica.

Pensando nisso, muitos ficam indignados com quem reduz o atentado da França a apenas mais uma chacina dentre várias que acontecem no mundo todos os dias, sendo este fato histórico uma expressão da fragilidade de nossa coletividade enquanto seres humanos e nossa consagrada organização civil em Estado Democrático de Direito.

Até que morre, assassinada, 10 dias depois, Érika Ribeiro Lemes. Em Jacareí, no Veraneio Ijal. Érika havia registrado inúmeros boletins de ocorrência contra o ex-marido, de quem se separou recentemente. Violência doméstica, ameaças de morte e até um incêndio em sua casa estão entre as denúncias registradas na Delegacia de Defesa da Mulher. O tal ex-marido continua um suspeito apenas, e Érika está morta.

Não teria sido Érika vítima de uma fragilidade de nosso Estado? Por que em nosso país, que tem uma lei como Maria da Penha, uma mulher que pediu o socorro do Estado não pôde ser protegida como esperava? E o quanto este atentado, no “nosso quintal”, fere nossa segurança coletiva? É realmente exagero ou simplicidade comparar o crime que acontece com o inocente ao lado com grandes barbáries históricas?

Afinal, estes pequenos atentados expõe igualmente a fragilidade de nosso Estado, e tecem a história cotidiana de nossa cidade, de nosso país, preparando um efeito dominó de violência que vai dar sabe-se lá onde.

E quem pode explicar a morte de Érika? E a de Cláudia Ferreira, arrastada por um carro policial? E a de Ana Carolina Cassino, que ficou abandonada 28 horas em um hospital particular a espera de uma cirurgia de apêndice?

Não há malabarismos retóricos que satisfaçam nosso inconformismo com a morte alheia, a menos que estejamos com os corações congelados, em pedra. De outro modo, se você ainda se importa com a chacina desproporcional que aconteceu na França, ou com o atentado que mora ao lado, é importante perceber que o mundo anda muito errado. Mudá-lo enquanto é tempo depende da sua tomada de consciência sobre o que está acontecendo por aí que fere inocentes e, assim, nossa humanidade.

Atentado

Foto: France Diplomatie

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