Empurra-empurra

Publicado em 5/2/15 às 8h00
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O assunto “rolezinho” na frente do Shopping voltou à pauta. Nada de muito diferente do ano passado. Apenas voltou a acontecer. Talvez a garotada tenha encerrado o período de férias e voltado à rotina de tudo, inclusive seu lazer. O interessante é que parece sempre haver em nós uma sensação de que é possível “olhar de fora” estes adolescentes, tidos como pobres, ou não pobres mas inseridos na cultura de rua, muito facilmente difundida hoje em dia.

 

O mais interessante é ver o jogo de empurra-empurra do Poder Público. A prefeitura diz que é responsabilidade do Estado, através da Polícia Militar, embora afirme que suas opções de atividades para jovens são eficientes. A Polícia Militar diz que é responsabilidade dos pais, e que tem áreas da cidade que realmente precisam de atenção policia, que não a Rua Olímpio Catão. Os pais, quando muito preocupados, devem culpar a cultura de consumo, a falta de oportunidades ou o “mundo como ele está”.

 

No fim, todo mundo tem razão, ou pensa ter, e ninguém assume a bomba, porque sabe que o buraco é mais embaixo. Mas vamos às análises: 1) os programas de lazer da prefeitura não suprem a necessidade destes jovens procurarem diversão na rua, cercados por drogas. 2) A gente vive vendo a polícia autuar menores com drogas e enviar para a Fundação Casa, mas ali na Olímpio Catão parece que não pode. 3) Fechar a rua para o trânsito de carros (proposta do Ministério Público)? É tudo que a meninada quer – e o Shopping não quer – pra fazer dali o espaço deles. E, enfim, é fato: ninguém é proibido de ficar na rua, desde que não cometa delitos e crimes. E juntar-se não é crime.

 

Agora, você que já tem lá seus mais de 50 anos e se aterroriza com o aglomerado de jovens na frente do Shopping, deve se lembrar que no passado, um dos momentos sociais mais esperados pela juventude era se encontrar na praça, à noite, próximo a uma sorveteria e tudo mais que se curtia na época. A diferença é que aquele discurso de liberdades individuais que você provavelmente defendeu no passado, em alguns níveis desembocou no desenvolvimento de uma cultura hedonista e numa educação permissiva. Eis o paradoxo: a liberdade pela qual lutamos é a que queremos impedir nossos jovens de possuir.

 

É claro que consumo de drogas ilícitas no Brasil é crime, bem como vender bebidas alcoólicas para menores – e isto deve ser investigado a fundo, e estabelecimentos punidos. Mas, será que é caso de observarmos o “rolezinho” como um circo de horrores, e vermos estes jovens como animais perigosos dos quais precisamos tomar distância? Sim, PM, os pais deveriam evitar que seus filhos frequentassem estes ambientes, mas como fazer isso agora, depois de alguns anos em que não conseguiram estabelecer laços de confiança com seus filhos? Muitos pais fazem o que podem, mas já vêm de origens com a referência paterna distorcida, e se vêem obrigados a criar seus filhos sob um jugo de consumismo ao som de Valeska Popozuda e Funk Ostentação. E esta é a profundidade do buraco.

 

O que resta, de objetivo, é fiscalizar e punir quem vende bebidas a menores, à Polícia Militar executar rondas para apreensão de drogas, a nós aprendermos a ser melhores pais, e a não ver os jovens como alienígenas (o que é a fórmula para o insucesso na comunicação com eles) e ao Shopping chorar a perda de público. E deixar o rolê fluir.

 

Rolezinho

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