Abalados e abandonados: Caminhoneiros contam que não houve apoio da população

Publicado em 30/5/18 às 9h01
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O país presenciou exatos 10 dias de paralisação dos caminhoneiros pelas rodovias federais, estaduais e municipais contra o aumento no preço do diesel. O movimento perdeu sua força quando o governo federal ordenou que a Polícia Rodoviária Federal e as Forças Armadas auxiliassem os desbloqueios das rodovias. Mas para o caminhoneiro Edson, de Mato Grosso do Sul que forçou sua parada em Jacareí, o motivo foi outro. “A falta de consciência da população desanimou o movimento. Quando você faz alguma coisa legitimamente, as pessoas cruzam os braços. Quando o eixo do país estava parado era a hora da população aproveitar para ir para a rua e demonstrar sua indignação”, diz indignado.

O caminhoneiro Edson contou para o Semanário sua indignação com a falta de apoio da população com o movimento.

O caminhoneiro Edson contou para o Semanário sua indignação com a falta de apoio da população com o paralisação no momento em que deveria se juntar a eles.

O caminhoneiro carrega o sentimento de desolação. “Vou rebaixar minha habilitação, não vou mais trabalhar como motorista. A partir de hoje eu já não sou mais caminhoneiro. Tenho 32 anos de transporte e sou obrigado a parar”, conta decidido.

Nova parada? – No domingo, quando se completava sete dias de paralisação, foram publicadas três medidas provisórias tomadas pelo governo Michel Temer, que prometeu entre elas a redução de R$ 0,46 do preço do litro do óleo diesel nas bombas. A segunda medida se trata da instituição da política de preços mínimos para o transporte rodoviário de cargas. A terceira medida provisória propõe não cobrar tarifa de pedágio sobre os eixos suspensos, quando os caminhões estiverem circulando vazios em rodovias federais, estaduais e municipais. A redução no preço do diesel valerá por 60 dias. “Quero ver o que será daqui a 60. Se continuar com essa política do óleo diesel, nós vamos ser obrigados a parar novamente”, diz, incrédulo com o acordo do governo. “Os colegas que vão tentar trabalhar, em questão de dias vão ser obrigados a parar novamente. Esse governo promete isso, promete aquilo, mas não é responsável o suficiente para cumprir”, acredita Edson.

O Exército foi convocado pelo governo federal para orientar os caminhoneiros no desbloqueio das rodoviais.

O Exército foi convocado pelo governo federal para orientar os caminhoneiros no desbloqueio das rodovias.

De mal a pior – O governo soma um prejuízo bilionário, em torno de R$ 10 bilhões aos cofres públicos com as medidas. Segundo os empresários, a normalização do mercado pode durar até 1 ano e o setor da logística soma uma perda de R$ 25 bilhões. Nos supermercados, o abastecimento pode se regularizar entre 5 e 10 dias.

Temer disse que o desconto no diesel será concedido “sem nenhum prejuízo para a Petrobras”, ou seja, o valor será pago pelo governo com dinheiro público. “A gente sabe o prejuízo que deu. A nossa tristeza é essa: não ter conseguido nada e ter dado um rombo desse no país. Se a gente tivesse conseguido alguma coisa com esse sacrifício, mesmo com o rombo na economia, tudo bem, a gente iria ter alguma coisa de volta. Mas a sensação é de não ter conseguido nada. Ver o prejuízo e ter que trabalhar para pagar tudo novamente, fica difícil”, conta Edson com tristeza.

O caminhoneiro Ednilson, de Carapicuíba, exerce sua função há 8 anos e acredita que a tendência da situação do país é só piorar. “Vai piorar, porque era para melhorar e não conseguimos. O que aconteceu foi piorar a situação”, diz o caminhoneiro que teve seu diesel e peças do caminhão furtado. “A população vê o que está acontecendo e ainda foram pagar R$ 7 na gasolina. Até voltar ao normal, imagina o quanto o povo vai sofrer?”, conclui com o questionamento.

Aumento, altas e quedas – O aumento é resultado da política de preços da Petrobras que repassa para os combustíveis a variação da cotação do petróleo internacional. O aumento do preço do barril, hoje a US$ 75 (equivalente a R$ 261) e da cotação do dólar em R$3,73 (até o fechamento dessa edição) compõe o custo dos derivados do petróleo, o que explica o aumento do preço da gasolina e diesel para o consumidor final, repassado pelos postos.

Só durante o mês de maio foram anunciadas dez altas e seis quedas no preço do diesel e doze altas e três quedas no da gasolina. Desde julho de 2017, o preço da gasolina nas refinarias acumula alta de 54,51% e, o do diesel, de 55,09%, segundo o Valor Online. As altas e quedas é resultado da mudança da política de preços da Petrobras, que desde julho de 2017, a empresa passou a realizar reajustes quase diários dos combustíveis. “Como você vai carregar um caminhão lá de Belém para descer para São Paulo em três dias de viagem se nesse meio tempo já teve três aumentos de combustível? Como você vai calcular esse frete? O lucro? Você tem família, você tem funcionário. Não estou aguentando mais”, explica o caminhoneiro Edson, de Mato Grosso do Sul.

Sem bandeiras – Questionados sobre quem seriam os responsáveis pela paralisação, os caminhoneiros disseram que o movimento foi inteiramente espontâneo. “Não tem empresário, não tem político. Este é um movimento do autônomo, porque já não há mais condições de trabalhar”, explica Edson.

Sérgio, que é caminhoneiro há 34 anos e trabalha como autônomo há 10, conta que não se sente representado pelas associações convocadas para as reuniões no Palácio do Planalto. “Foi espontâneo porque a gente não aguenta mais. Estou com 10 dias parado aqui. Se melhorar o transporte para todo mundo, melhora a situação do país”, conta Sérgio consternado com a situação. Ele ainda diz como se sente com o enfraquecimento da greve. “Sinto-me um lixo. Por mim estaria todo mundo aqui parado. O governo queria desestabilizar o movimento e conseguiu. Se dessa vez não resolver, pode esquecer”, conta incrédulo com a melhora do país.

Sérgio é caminhoneiro há 34 anos e não se conforma com o término da paralisação.

Sérgio é caminhoneiro há 34 anos e não se conforma com o término da paralisação.

O sentimento geral dos caminhoneiros, que fazem todo o sistema de abastecimento do país acontecer, é de abandono e desmotivação com a categoria. Em uma declaração emocionada, Edson conta como é a situação de trabalho dos caminhoneiros. “Quem quiser continuar, pode continuar, mas vou falando desde já: não compensa ser caminhoneiro no Brasil. Salário não ajuda e você não tem segurança. As empresas ‘jogam’ os caminhoneiros pelas rodovias e ficam cerca de 60 dias na estrada fora do aconchego da família, não vê filho crescer, não curte o neto, não tem nada. Você recebe parabéns da família do seu aniversário na estrada por telefone”, conta com muita tristeza, abalado e com lágrimas nos olhos com o resultado negativo da paralisação.

"O que tem que mudar no país não é a política, mas sim a conscientização do povo", conta Edson abalado.

“O que tem que mudar no país não é a política, mas sim a conscientização do povo”, conta abalado, Edson.

 

 

 

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